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A máscara do mal outubro 31, 2008

Posted by Ramon Barbosa in Reflexão, Sabedoria.
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Em minha parede há uma escultura de madeira japonesa.

Máscara de um demônio mau, coberta de esmalte dourado.

Compreensivo observo as veias dilatadas da fronte, indicando: como é cansativo ser mau!

*   *   *

Os versos de Bertolt Brecht – importante dramaturgo e poeta alemão do século XX – trazem de uma forma descomprometida, quase ingênua, uma verdade grandiosa.

Certamente ele percebeu, nos traços fortes e sérios daquele rosto, a marca do cansaço, do peso de se carregar um cenho cerrado por tanto tempo. E quem é capaz de agüentar esse fardo por tanto tempo?…

Carregar a máscara do mal extenua e consome as forças inevitavelmente. Carregar a máscara do ódio, do ressentimento, da revolta, dilata-nos as veias da fronte; envenena-nos as células; faz adoecer, dia após dia, o corpo e a alma.

O mal é extremamente desconfortável, eis a verdade. Mais uma das razões pelas quais entendemos que ele não tem como prevalecer na Terra. Embora possa trazer aparentes vantagens num primeiro momento, com o passar do tempo ele nos cansa, nos enfraquece.

A essência do bem, pelo contrário, nos torna mais leves e nos concede prazeres duráveis e autênticos. Foi-se o tempo em que precisávamos responder violência com violência. Foi-se o tempo em que o ataque era a melhor defesa, lembrando certas técnicas bélicas tão cultuadas. Foi-se a era da lei do mais forte.

São chegados os tempos do reino do amor, de colocar em prática, sem medo, o ensino do ofereça a outra face. E a outra face da máscara do mal é a essência do bem, que todos temos em nosso íntimo.

Tal como pedra a ser lapidada, a essência Divina habita a intimidade de nosso Espírito imortal, e aguarda chance de luzir para nunca mais se apagar.

Se, em outras épocas, os guerreiros que mais resistiam aos inimigos eram aqueles que carregavam a máscara do mal, do ódio fulminante, hoje, tal sucesso se dará para os que optarem pelo bem  e em nome do bem se opuserem ao mal.

A todo instante caem os guerreiros do mal, entendendo finalmente que o bem há de reinar. E o que parece derrota num primeiro momento, mostra-se como vitória, logo em seguida. Vitória do homem sobre ele mesmo. Vitória da virtude sobre a imperfeição. Da luz sobre a treva.

Na obra A gênese, Allan Kardec discorre sobre a temática da origem do bem e do mal, e apresenta o seguinte raciocínio:

Deus, todo bondade, pôs o remédio ao lado do mal, isto é, faz que do próprio mal saia o remédio.

Um momento chega em que o excesso do mal moral se torna intolerável e impõe ao homem a necessidade de mudar de vida.

Instruído pela experiência, ele se sente compelido a procurar no bem o remédio, sempre por efeito do seu livre-arbítrio.

Quando toma melhor caminho, é por sua vontade e porque reconheceu os inconvenientes do outro.

A necessidade, pois, o constrange a melhorar-se moralmente, para ser mais feliz, do mesmo modo que o constrangeu a melhorar as condições materiais da sua existência.

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O filho que saiu de casa outubro 30, 2008

Posted by Ramon Barbosa in Amor, Família, Perdão, Reflexão, Reforma Íntima, Sabedoria, Tempo.
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A parábola do Filho Pródigo contém preciosas lições. Uma delas reside no comportamento do filho pródigo.

No princípio, ele se deixa seduzir pela tentação dos vícios. As paixões cintilam aos seus olhos e ele decide vivê-las. Pede recursos ao pai e se lança no mundo. Parte para longe de sua família e dissipa a própria herança. Entretanto, a vida o convida a rever seus valores e  atitudes. Uma grande fome se faz no local que ele escolhera para viver. Enquanto passa duras necessidades, reflete sobre a abundância que existe na casa paterna. É então que começa a retificar o seu íntimo. Não pretende fugir às conseqüências dos próprios atos. Não almeja viver fartamente. Aliás, não pretende sequer ser tratado como filho. Contenta-se em ser admitido pelo pai como um simples trabalhador de suas terras.

Tomada a resolução, lança-se na estrada. A viagem feita na riqueza agora é refeita na pobreza, em sentido contrário. Certamente são muitas as dificuldades para vencer as distâncias. Mas ele não esmorece e chega na propriedade da família. Confessa ao pai o arrependimento e suas novas disposições. Entretanto, grande é o júbilo do senhor da terra com o retorno do filho. Ele providencia os melhores sinais de boa acolhida, como boas vestes, anel no dedo e festa.

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O filho pródigo representa o Espírito que se deixa seduzir pelas paixões mundanas. Tendo recebido preciosos tesouros do Criador, ele os consome inconseqüentemente.

Vidas que deveria aproveitar para aprimorar-se e fazer o bem, ele gasta com bobagens. Permite-se atos desonrosos e converte-se em um mendigo espiritual.

Essa situação já foi vivenciada, em maior ou menor grau, por quase todos os Espíritos que ora jornadeiam no planeta Terra. Agora, eles vivem a jornada de retorno. Por entre dificuldades, necessitam refazer o caminho para  a casa paterna, que representa o equilíbrio e a paz.

Nesse momento evolutivo, convém recordar o corajoso exemplo do filho pródigo. Ele assumiu valorosamente as conseqüências de seus atos. Na hora da reparação, não se rebelou e nem reclamou. Não desejou a chegada de uma confortável liteira para reconduzi-lo ao local de que saíra de livre e espontânea vontade. Reuniu suas forças e refez o caminho, resolutamente.

Assim, se as dificuldades se apresentam em sua vida, não se imagine vítima e nem brade contra os Céus. Veja nelas o seu caminho para a conquista da paz e do bem-estar. Trilhe-o com coragem e dignidade, certo de uma acolhida generosa, ao término da jornada.

Viver o Presente outubro 29, 2008

Posted by Ramon Barbosa in Sabedoria, Tempo.
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Quer aprender a viver no presente? Então tenha filhos.

Observar um bebê e a sua relação com o tempo é simplesmente divino, afirma a escritora e professora de yoga, Isabela Fortes.

Nessa observação da vida infantil, através da lupa da sensibilidade, ela afirma que, para o bebê, o passado e o futuro não existem, apenas o agora. Em variações de pequenos segundos, ele tenta nos comunicar o que precisa, no momento em que precisa: fome, sono, dor, fraldas – tudo só existe no agora.

Também as crianças maiores, na primeira infância, levam algum tempo para conseguir entender o tal do tempo. Ontem, amanhã, daqui a dois dias ou dois anos, para elas é tudo igual e incompreensível.

Essa questão nos leva a experiências curiosas, como por exemplo, a do casal que adotou uma forma peculiar de conseguir explicar o tempo para sua filha de 5 anos. Quando queriam dizer que faltavam 2 dias para ela viajar, ou para começar as aulas, afirmavam: Você terá que dormir e acordar, e depois dormir e acordar novamente, aí chega o dia.

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Dessa característica especial dos pequenos, podemos aprender que o foco, no tempo presente, é fundamental para ter uma vida equilibrada. Gastamos energias em demasia quando presos excessivamente ao passado, às lembranças. Da mesma forma que nos desgastamos muito com a tal da preocupação, isto é, uma ocupação prévia com algo que ainda não aconteceu, e pode nem vir a acontecer. Foi assim que conhecemos a temida e tão analisada ansiedade que, nos dias de hoje, nos traz problemas e mais problemas existenciais.

Quando nos focamos no presente, vivendo um dia de cada vez, como se diz popularmente, aproveitamos o tempo com muito mais eficiência e menos desgaste. Fazemos cada tarefa pensando nesta tarefa, e não naquilo que deixamos de fazer ou naquilo que faremos amanhã ou depois. Quando estamos com alguém que amamos, com a família, por exemplo, estejamos lá por inteiro, e não metade ali, aproveitando, e outra metade voando com o pensamento para longe.

Alguns de nós chegamos a fazer uma espécie de autoterrorismo, cultivando pensamentos como: Pena que esses momentos não duram! Como viverei quando tudo isso acabar? São sofrimentos voluntários, desnecessários, que impomos aos nossos dias, por não nos darmos chance de viver o presente, e dele extrair tudo de bom que está nos ofertando.

Viver o presente não significa, porém, viver sem planos, sem objetivos. Nem desconsiderar o passado, sem tê-lo como referencial importante – de forma alguma! Viver o presente é dar o devido peso a cada um desses tempos, aprendendo com o passado, vislumbrando o futuro, mas trabalhando no presente, e apenas no presente.

É fundamental lembrar do ensino do Cristo, quando, ao perceber as inquietações de nossa alma, quanto aos dias vindouros, afirmou:

Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, pois o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.

Autoridade outubro 28, 2008

Posted by Ramon Barbosa in Justiça, Perseverança, Reflexão, Sabedoria, Tempo, Trabalho.
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O desejo de ocupar posições de destaque e relevância é bastante comum. A vida dos poderosos do mundo costuma ser idealizada pelas multidões. Eles aparecem ricamente trajados, em festas ou em situações de regalo e desfrute. Quem leva uma vida modesta e obscura, não raro, almeja trocar de lugar com essas importantes figuras.

Muitos se inquietam e desgastam com sonhos de grandeza. Quando comparam as suas vidas com as de alguns outros, ficam amargurados e tristes. Chegam a se achar injustiçados pela Divindade, haja vista a escassez de suas posses. Mas opulência e modicidade de recursos refletem apenas diferentes formas de aprendizado. A vida modesta tem grande valor, se levada a efeito com dignidade e sem murmurações. Ela viabiliza a correção de graves vícios espirituais, como vaidade e apego a bens materiais. Não se trata de fazer apologia da miséria como estado ideal. A miséria é uma chaga social que deve ser extirpada, mediante educação e oferta de oportunidades aos que a sofrem. Mas entre a miséria e a opulência há uma miríade de situações intermediárias.

Nem todos podem ser ricos e poderosos ao mesmo tempo. Por isso, as posições sociais e econômicas se alternam ao longo das encarnações. Com respeito aos talentos e às inclinações de cada um, todos são chamados a viver as mais variadas situações. O relevante é ser digno, operoso e solidário, qualquer que seja a própria realidade. A vida dos poderosos, muitas vezes, nada tem de invejável. Sob a aparência de brilho e abastança, jazem pesadas responsabilidades. Elas são tão mais pesadas porque guardam o condão de influenciar a vida de incontáveis pessoas.

O detentor de autoridade, da espécie que seja, sempre terá de dar contas do uso que dela fez. Ela nunca é conferida por Deus para satisfazer ao fútil prazer de mandar. Não é direito e nem propriedade, mas uma importante e perigosa missão.

O poderoso tem almas a seu cargo e responderá pela boa ou má diretriz que der aos seus subordinados. Após o término da tarefa, ele será confrontado com a própria consciência. Analisará os recursos de que dispunha e o uso que deles fez. Então, verificará se evitou todos os males que podia. Pensará se fez todo o bem que lhe era possível. Vislumbrará o resultado de sua influência junto a inúmeros que dele dependiam ou nele se espelharam.

Bem se vê que a autoridade não deve ser levianamente buscada. Se a vida o projetou a posições de relevo, seja digno e faça o seu melhor, para não se arrepender amargamente. Mas se a sua vida é modesta, não se amargure. Tudo vem a seu tempo e é melhor ser digno no pouco do que indigno e desgraçado no muito.

Pense nisso.

Ser feliz ou estar feliz? outubro 4, 2008

Posted by Ramon Barbosa in Reflexão.
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Será possível sermos felizes, em um mundo tão infeliz? Um mundo onde mais da metade da população vive abaixo do nível da pobreza? Um mundo onde há terremotos, tsunamis, furacões, inundações e seca? Um mundo injusto, onde pouco mais de mil pessoas possuem riqueza, igual ou superior, à riqueza do conjunto de países onde vive 59% da Humanidade? É possível ser feliz num mundo assim? É possível ser feliz em um país como o Brasil, onde 46% da riqueza nacional está nas mãos de apenas cinco mil famílias?

Uma privilegiada cabeça brasileira, ao analisar a questão, separou a felicidade em dois tempos: o tempo vertical e o tempo horizontal.

O tempo vertical é o momento intenso, vibrante, de uma realização. Pode ser a conquista de um título num campeonato, o ter passado no vestibular, o primeiro encontro amoroso, o nascimento de um filho. Nesse tempo vertical, a pessoa está feliz. É um momento especial, mas passageiro. Assim, pode-se estar atravessando intensas dores, graves problemas e estar feliz em alguns momentos: pelo diploma conquistado pelo filho, pelo emprego tão aguardado que se anuncia, pela viagem sonhada que se concretiza.

O tempo horizontal é o do dia a dia. Assim, a paixão, o ideal do amor eterno que faz a pessoa desejar estar com o outro é o tempo vertical, de estar feliz. No relacionamento a dois, na rotina em que, por vezes, se transforma o casamento, há um desgaste natural. Nesse momento, é que entra o diálogo, a tolerância, a renúncia,o cultivo da ternura, sem o que o amor esfria, até virar indiferença. Nesse momento a pessoa pode ser feliz. Feliz se tiver a capacidade de romper a rotina: inventar um programa, sair com amigos, ir ao teatro. Inventar e reinventar cada dia. Feliz se tiver a sabedoria para descomplicar as questões, acolher os limites, compreender e superar dificuldades.

Dessa forma, podemos estar felizes no dia que ganhamos uma promoção, um aumento de salário compensador. Podemos estar felizes quando nosso filho volta ao lar, depois de longa viagem ou alguém muito querido nos visita. São momentos intensos, vibrantes.

O ser feliz é o estado prolongado, sempre recriado e alimentado. É a sabedoria de viver.

A felicidade, pois, é uma conquista. Podemos sorvê-la, em grande dose em um momento, em um dia e estarmos felizes. Podemos sorvê-la em gotas homeopáticas, a cada dia, e sermos felizes. Podemos, pois, escolher, como desejamos a nossa felicidade: em tempo vertical ou em tempo horizontal.

Desejamos estar felizes ou ser felizes?

* * *

Vives momentos de felicidade dos quais não te apercebes. Diante dos teus olhos estão paisagens ricas de beleza e cor. Seguem contigo as bênçãos de Deus, que ainda não sabes valorizar.

As ocasiões de amar e ser amado se multiplicam. Rompe a carapaça que te impede o claro discernimento e aprende a ser feliz.

Infância Espiritual outubro 3, 2008

Posted by Ramon Barbosa in Amor, Perdão, Reflexão, Sabedoria.
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É muito famosa a passagem evangélica na qual Jesus afirma: Deixai que venham a  Mim as criancinhas.

O Mestre divino aproveitava as menores ocorrências da vida para ministrar sublimes lições.

A primeira idéia que se extrai da passagem refere-se à imagem de pureza que as crianças apresentam. Sendo todas elas Espíritos que já encarnaram inúmeras vezes, algumas são mais bondosas e puras do que outras.

Mas a candura é inerente à infância, a fim de inspirar nos adultos os cuidados necessários ao atendimento de sua fragilidade. Justamente desse aspecto de fragilidade surge uma importante lição das palavras do Cristo.

As crianças necessitam de orientação e cuidados. Elas são frágeis e impressionáveis. Quem convive com crianças necessita de uma certa dose de abnegação, a fim de gastar o tempo necessário ensinando-as e amparando-as em suas dificuldades.

Ocorre que a fragilidade material que caracteriza a infância é bastante breve.

Há outro gênero de fragilidade bem mais duradoura e penosa. Trata-se da infância espiritual das criaturas.

Os Espíritos que habitam o planeta Terra não se encontram todos no mesmo nível evolutivo. Muitos deles já compreendem seus deveres essenciais em face da vida. Sabem que é impossível construir a própria felicidade sobre a desgraça alheia. Entendem que não há felicidade sem paz e nem paz sem consciência tranqüila. Assim, jamais se permitem fazer o mal ao próximo. Quem já internalizou o respeito à lei divina atingiu a maturidade espiritual.

Entretanto, uma parcela muito substancial dos Espíritos vinculados à Terra permanece infantil, sob esse aspecto. Eles apresentam no mundo, muitas vezes, uma imagem odiosa. Não importa a posição social que ocupem, sua fragilidade moral sempre se evidencia. Onde quer que estejam, buscam levar vantagem, às custas dos outros.

Se poderosos e sofisticados, envolvem-se em vergonhosas negociatas. Se pobres, também lesam o próximo, embora em menor grau.

Embora suscitem muita antipatia, na verdade são lamentáveis, em sua inconsistente moral. Seus atos apartados da ética lhes preparam dias de dor e decepção.

Afinal, a Lei Divina é perfeita e ninguém jamais a consegue burlar.

* * *

A respeito desses irmãos infantilizados, convém refletir sobre a mensagem de Jesus.

Não é digno do cristão o desejo de exterminar quem segue na retaguarda. Todos somos ovelhas do rebanho do Cristo e nenhum de nós se perderá.

É preciso corrigir esses irmãos e deter os seus atos, inclusive para que não se atolem em seus desatinos.

Mas nunca devemos odiá-los ou abandoná-los. Ainda mais do que as crianças, eles necessitam de orientação.

Pensemos nisso.

Pássaros Crescidos outubro 2, 2008

Posted by Ramon Barbosa in Família, Tempo.
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Um dia, nos escapam das mãos…

Volta pro ovo! – queremos dizer – como na canção.

Mas o ovo se faz pequeno para a vibração de um pássaro novo. O ninho já não basta como extensão de si mesmo; não mais reflete suas necessidades primárias.

O pássaro quer voar. O pássaro precisa voar.

Houve o tempo em que nos víamos agigantados nos olhos desses pequeninos seres voláteis, heróis domésticos que éramos, mas de tal forma reconhecidos que nos convencíamos de nossos dons extraordinários.

De fato, somos fabulosos na arte de gerar, nutrir, desenvolver, ensinar, conduzir, proteger e tudo mais que sabemos fazer sem que ninguém nos ensinasse, até vê-los como estão, crescidos e atrevidos.

Foram-se as penugens que alisamos, o bico esfomeado, o novelo de plumas que se escondia em nossas asas.

Tudo que vemos agora são penas arrepiadas e rebeldes, difíceis de alisar.

E o suave trinado que já se fez cheio de notas, agora vem nos ferir os ouvidos com a estridência de uma nota só.

O fato é que um dia eles crescem, abrem, sem avisar, as asas delicadas e no tempo de um espirro nos deparamos com a envergadura do filhote. O gesto se antecipa e anuncia a extensão do salto.

Volta pro ovo!! – queremos dizer – mas não nos ouvem, envolvidos que estão no intenso farfalhar das asas debutantes.

Então olhamos para nós, pássaros de penas ralas, e nos empenhamos em lembrar as palavras mágicas, na esperança de recuperar poderes há muito aposentados.

Desprovidos dos antigos recursos, nada nos resta fazer senão admirar o vôo desses calouros emplumados, pintainhos que fizemos crescer com nossos mimos, e a quem demos asas para que brincassem à nossa volta.

Mas eis que se definem no estilo e na performance: que lindos volteios, que rasantes, que belos planadores se revelam!

E como sobem com determinação, para depois mergulhar vertiginosamente no espaço e logo conter o ímpeto, com precisão, antes de tocar o chão num pouso de mestre.

Estão a nos estufar o orgulho.

De fato, não há como querer contê-los, aliás, já se foram, em revoada, silfos barulhentos que ensinamos a voar, para que um dia pulassem do ninho e, corajosamente, voassem.

* * *

Ah!… O amor por nossos filhos…

Aprendemos a amá-los de tal forma, que é totalmente compreensível a dificuldade que temos em deixá-los alçar vôo por conta própria.

Para mim ainda são crianças! – proclamam alguns pais, mirando com carinho seus rebentos gigantes.

Mas aí vêm os sábios, a vida e a natureza, e nos dizem que não somos seus donos, e que o amor maduro é aquele que sabe libertar.

E o coração de pai, de mãe, então, apertados, começam a aprender a libertar.

E nesse processo lento, natural, percebem que, se amam realmente, devem pensar no que seja melhor para o objeto de seu amor, e não mais para si.

Não há como fugir de tal realidade da existência, é certo…

E nesse caminho sem volta, vamos percebendo que a dor inicial da separação vai sendo substituída por uma felicidade sem igual.

A felicidade de se perceber, finalmente, que cumprimos nossa missão e que, ao libertar, estamos ganhando um amor para todo o sempre.

Cargas Desnecessárias outubro 1, 2008

Posted by Ramon Barbosa in Perseverança, Reflexão.
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Conta-se que um homem caminhava vacilante pela estrada. Em uma das mãos levava um tijolo e, na outra, uma pedra. Nas costas carregava um saco de terra e do pescoço pendiam algumas vinhas. Completando a inusitada carga, equilibrava sobre a cabeça pesada abóbora.

Sua figura chamava a atenção e um transeunte o deteve e lhe perguntou:

Por que você carrega esta pedra tão grande?

O viajante olhou para a mão e comentou:

Que estranho! Eu nunca havia notado que a carregava.

Assim dizendo, lançou fora a pedra, continuando sua marcha, sentindo-se agora bem melhor.

Mais adiante, outro transeunte, lhe indagou:

Você parece muito cansado. Mas, por que carrega uma abóbora tão pesada?

Estou contente que me tenha perguntado. – falou o viajante. Eu nem havia notado o que estava fazendo comigo mesmo.

Então, jogou para longe a abóbora, prosseguindo a andar com passos mais leves.

Assim foi pelo caminho todo. Cada pessoa que ele encontrava lhe falava de um dos pesos que ele levava consigo.

Por sua vez, o viajante os ia descartando, um a um, até se tornar um homem livre, caminhando como tal.

Seus problemas, acaso, eram a pedra, o tijolo, a abóbora? Naturalmente, não. Era a falta de consciência da existência delas. Quando as viu como cargas desnecessárias, lançou-as longe, liberando-se. Esse é o problema de muitos de nós.

Carregamos a pedra dos pensamentos negativos, o tijolo das más impressões, a pesada carga de culpas por coisas que não se poderia ter evitado. Penduramos ao pescoço a autopiedade, conceitos de punição e de que tudo está perdido, sem solução.

Não é de nos admirarmos, pois, que nos sintamos tão cansados, sem energia!

Portanto, hoje, verifiquemos se estamos carregando a canga da mágoa, o mármore do remorso, a lápide da culpa. Seja um tijolo de recriminações ou uma grande pedra de queixas, lancemos tudo longe.

Aprendamos a nos libertar e sintamo-nos mais leves, seguindo pela estrada da vida como quem anda ao sol, em plena primavera, aspirando o ar das manhãs, enchendo pulmões e oxigenando o cérebro.

Desafoguemos o coração dos quilos de mágoa e vivamos lúcidos, perseguindo objetivos maiores.

Não culpemos a outrem pelo nosso desânimo e nosso cansaço.

Olhemos para nós mesmos, conscientizemo-nos das cargas desnecessárias, tomemos as devidas providências.

Sigamos felizes, leves, conscientes, perseguindo metas de saber, luz, paz, felicidade.

* * *

Mantém a tua consciência desperta. Não te deixes consumir pelo desalento ou por qualquer sentimento de incapacidade. Aprimora-te sempre. Ilumina-te sempre e trabalha para alcançares a felicidade, que tanto anseias.