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Onde mora a paz? abril 17, 2008

Posted by Ramon Barbosa in Paciência, Reforma Íntima.
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Pedro mora próximo à Rua 23 de Maio há 15 anos. Nos últimos tempos, está à beira de um ataque de nervos, pois não consegue mais suportar o barulho ininterrupto dos carros. Ele tem algumas escolhas: trabalhar pelo fechamento da avenida – ao menos à noite; pela modificação da legislação de poluição sonora ou uso de automóveis; ou ainda, mudar-se.

É importante, porém, comentar também sobre seu vizinho, Bernardo. Bernardo vive ao lado de Pedro, também de frente para a Rua 23 de Maio. Perguntado a ele o que achava de viver naquele apartamento, a resposta foi surpreendente. Revelou que adora viver ali. Ele acha linda a vista que tem do apartamento. Disse que pode ver o maravilhoso nascer do sol de sua janela. Adora observar a cidade. Perceber os habitantes caminhando ou em seus carros, e os resistentes passarinhos que aprenderam a viver com a civilização. Numa conversa entre os dois, Pedro não agüentou, e questionou: Mas e o barulho? Você não se incomoda com toda esta barulheira que não tem fim? Bernardo respondeu: Olhe, fico tão concentrado nos meus afazeres, que eu nem percebo o barulho. Pedro não podia acreditar. Achou, por um instante, que o vizinho tinha problemas auditivos, e falando bem baixo, tentou descobrir se ele era surdo. Mas não era. Ouvia muito bem.

Como explicar isso? Ele ouvia muito bem e não se incomodava com o barulho? E à noite? – perguntou ainda Pedro, indignado – Como você faz para dormir?

Vou ser bem sincero, caro amigo – respondeu Bernardo – à noite, ao deitar, sinto-me tão feliz com o dia vivido e com as coisas que tenho feito, que também não me incomodo com barulho algum.

Pedro pôde ver sinceridade e pureza nos olhos e nas palavras do contérmino morador. Naquele momento ele percebeu a razão de se incomodar tanto com aquelas coisas: ele não era feliz com o dia que tinha, e nem com as coisas que fazia.


Um outro personagem também ilustra bem a reflexão proposta:

Trata-se de Daniel. Jovem, de família abastada, casado, e morador de um condomínio fechado. Daniel foi presenteado por seus pais com uma casa no litoral. Ficou, a princípio, muito animado com a mudança. Afinal, haveria lugar mais tranqüilo e pacífico do que próximo ao mar?

Os dias passaram, e ele percebeu, pouco a pouco, que não seria capaz de suportar aquele estilo de vida. Aquele barulho constante de ondas quebrando; gaivotas gritando logo cedo; aquela umidade de maresia; a areia que insistia em acompanhá-lo em seu carro e em sua casa.

Daniel entrou em crise. Variava entre estados de irritação e depressão. Começou a tomar remédios, e decidiu: iria se mudar dali.


Onde mora a paz? Será que a paz está na ausência de ruídos externos? Será que para dormir em paz precisamos apenas de silêncio?

A paz tem moradia em nosso íntimo, e enquanto não formos felizes com nossos dias, com as coisas que fazemos, não a encontraremos. Não basta mudar deste para aquele local. Faz-se necessário mudar-se na intimidade. Deixar para trás o lar das atividades fúteis, das conquistas passageiras, e fixar morada na casinha aconchegante da alegria de viver, do amor à família, do prazer de servir.

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